CARTA RESPOSTA AO POETA LOUCO

Carta de resposta ao poeta mendigo que mora com a vó, mas que se acha muito sabichão da vida tendo orgulho dos seus porres e de sua perturbação sexual, mas que não lava sequer as próprias cuecas.
 
[CARTA RESPOSTA AO POETA LOUCO]
 
Pra mim, não existe nada mais deprimente do que um bêbado/doente que tem orgulho dos seus porres, seus vômitos, suas brigas, suas internações, suas experiências de quase morte. Nada me interessa nessa pessoa, se você tem orgulho de ser bêbum/doente, é porque não lhe resta mais nada para se orgulhar na vida.
 
Sempre que leio a notícia e vejo que algum idiota atropelou 10 pessoas na parada de ônibus às 6h da manhã, ou que atirou na mulher, ou que assediou uma jovem, que brigou na porta da boate, bateu na mãe, sei lá… A maioria das merdas estão relacionadas ao alcoolismo e adicção. A maioria das vezes eu acho que poderia ter sido você.
 
Não se trata de preconceito com os poetas, nem de revolta com os roqueiros conservadores, ou de desavenças com os marxistas de bar. Eu também admiro o velho buko, amo rimbau, artaud, breton, bato cabeça ao som de jimi hendrix. Mas nem por isso vou deixar de reconhecer que eu já fiz muita merda, que eu já fui um desses idiotas que nem você.
 
O fato é que o álcool e outras drogas estão anulando a capacidade criativa/revolucionária de muitas pessoas ao invés de “libera-las” para tal. É diferente de um recreacionismo, estou falando dos bebedores/cheiradores pesados, diários, constantes, que chegam em casa com a cara toda quebrada porque caíram, porque brigaram, porque não lembram o que fizeram, quem nem você…
 
Vai aparecer um monte de panaca que toma umas cervejas querendo defender o direito ao pingucismo, não é essa a questão. O problema são os hospitais, as delegacias e os necrotérios cheios, não o bar. O bar é apenas um recanto onde alguns se anulam para fazer poesia ruim, para mais uma análise de conjuntura política, discutir o futebol ou arremessar seus afetos dentro do copo. Estou aqui falando de outros que não são mais pessoas públicas, são aqueles que se ocultam para beber, que se escondem pra cheirar, pois eles não se suportam mais, eles não aguentam os outros, eles não querem dividir o que são. Essas pessoas são você.
 
Então vai lá poeta, músico, filósofo, visita o necrotério, olha a quantidade de velhos que são incapazes de limparem a própria bunda porque estão sempre enfiados na cachaça e pergunta o que te falta para ser igual a eles? Mais uns goles, com certeza…
 
Qual o prazer de mais um téco? e mais um, e mais um, e mais um e amanhã se sentir uma bosta fedorenta. Pois bem, que tal responder hoje mesmo diante do espelho: você é uma bosta!
 
Pensando bem, porque você não tenta ao menos parar e ser um poeta melhor, um músico melhor, se formar em filosofia… Quem sabe se você deixar esse orgulho ridículo de colecionar internações e se dedicar às coisas que realmente importam na vida, talvez assim quem sabe, a sobriedade lhe dará oportunidade de produzir alguma merda que realmente preste e te transforme em alguém capaz de ser lembrado por sua poesia, música ou filosofia.